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segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Chico faz a gente acreditar em cada coisa...

"Eu tava mexendo no violão, começando a fazer a melodia, e a primeira imagem que apareceu foi exatamente esta: uma cidade submersa, isolada de tudo. Porque, cantarolando, parecia que a música queria dizer isso. Eu tinha que ir atrás da explicação dessa cidade submersa. Aí eu coloquei os escafandristas, e surgiu a história de um amor adiado, um amor que fica para sempre. Essa ideia do amor como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não se desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se milênios, e aquele amor ficará até debaixo d’água. Um amor que vai ser usado por outras pessoas, um amor que não foi utilizado porque não foi correspondido, e então ele fica ímpar, pairando… Esperando que alguém o apanhe e complete a sua função de amor".

Chico Buarque


Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

domingo, 22 de abril de 2012

Trilha Sonora #2: Casa Pré-Fabricada

Los Hermanos

Abre os teus armários, eu estou a te esperar
Para ver deitar o sol sobre os teus braços, castos
Cobre a culpa vã, até amanhã eu vou ficar
E fazer do teu sorriso um abrigo

Canta que é no canto que eu vou chegar
Canta o teu encanto que é pra me encantar
Canta para mim, qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz
Tristeza nunca mais

Mais vale o meu pranto que esse canto em solidão
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas
Abre essa janela, a primavera quer entrar
Pra fazer da nossa voz uma só nota

Canto que é de canto que eu vou chegar
Canto e toco um tanto que é pra te encantar
Canto para mim qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz
Tristeza nunca mais

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Trilha Sonora #1: Janeiro Ainda - Possibilidades

Gonzaguinha

[Ouça]

Te esperei vinte e quatro horas ou mais
de cada dia que eu vivi.
Te esperei mais de sete dias por semana,
sem um só dia te trair.
Te esperei mais de nove meses sem poder partir.
Mais de doze meses cada ano,
e te esperei
até um novo século surgir.
Te esperei na mesa, te esperei na cama,
Olhando as estrelas, te esperei na lama.
Te esperei bebendo,
te esperei calado,
embriagado
e gritando por aí.
Te esperei com fome, te esperei sem nome,
uma vez chorando e outra sem sorrir.
Num barraco, numa esquina,
te esperei pelo mundo,
te esperei sempre assim,
num buraco sem fundo
por dentro de mim
Mata derrubada, nas encruzilhadas,
pelas avenidas,
Te esperei no sangue, te esperei no mangue,
água derramada, vida proibida,
hóstia consagrada, pena colorida.
Te esperei de gravata, de luva e sapato.
Com tanto recato, nua e mal vestida.
Te esperei toda a morte,
te esperei toda a vida.
No regato, no esgoto,
Te esperei no mato,
no eclipse lunar, no luar neon.
Na escura solitária, no clarão das luminárias,
No ponto de encontro entre a bela e o monstro,
no raso da Catarina, na profunda dos infernos.
Te esperei nos azes, te esperei nos ternos,
Te esperei na tua, te esperei na minha,
Te esperei Clarice, te esperei Virgínia.
Te esperei tantos marços e mais fevereiros,
Esperei por inteiro e espero ainda neste
novo janeiro te dar boas vindas.
Dói cicatriz, unha arroxeando
Gota latejando, formigueiro assanha
Corre Dina e apanha logo
a roupa no varal que - vai chover!
Corre fogo longe, coração trovão,
tudo em volta cala.
Rio barreando, já na cabeceira
Vive o temporal - eu vi uma estrela!
- Daniel, uma vez há muito tempo atrás
Seu avô baiano chegou lá em casa a nado.
Eu e Dina estávamos em cima da mesa com água
pela pintura.
Na minha mão havia um barquinho de papel doido
pra brincar na correnteza,
e eu tinha certeza!
E o quarto crescente sorriu no céu,
perfeito sinal para o sol brilhar!
A arca afinal aportou cá no monte esperança, viu!
Mudança de tempo se sente no ar,
possibilidades de procriação!