quarta-feira, 11 de maio de 2011

Canto

Ora, ora! Vamos embora
que o andar da hora
não nos espera!
Veja, veja! Segue a peleja,
que a paz que goteja
é pura quimera!
Siga, siga! Alcance e bendiga
a mão tão amiga
que longe te espera!
Cante, cante a alegria distante!
Só te importa ir avante,
ser além do que era!

sábado, 7 de maio de 2011

Do lado de cá

Do lado de cá interpreto sinais,
procuro vestígios, desculpas, motivos
para entender o que não é meu.
Do lado de cá eu traço rotas
para a minha possível travessia,
mas minha bússola se engana,
sempre se engana.
Do lado de cá monto quebra-cabeças,
costuro uma colcha de retalhos:
mil pedaços do que poderia ser,
compondo um todo que não ganha vida.
Do lado de cá bate sol,
tem água e comida,
tem chuva e tem estio.
Tudo corre bem, para quase todos.
Só no meu olhar falta um pouco
de brilho.
Do lado de cá permaneço,
porque ponte ainda não há;
ou apenas existe e persiste o meu medo
de atravessar.

domingo, 1 de maio de 2011

Teu Olhar

Teu olhar, um segredo:
posso eu, logo cedo,
algo novo prever?
Teu olhar faz mistério,
e se torna tão sério
quando hesita em me ver.

Teu olhar, meu espelho:
mau exemplo ou conselho,
o que vem me contar?
Teu olhar, falsa mágica:
uma nota tão trágica
pode aqui retratar.

Teu olhar, um veneno:
sentimento pequeno
faz crescer e aquece.
Teu olhar, uma cura:
é encontro e procura;
me enxerga e esquece.

Teu olhar, quase engano,
levemente profano:
quanto quer me iludir?
Teu olhar toda hora
me faz ir mundo afora,
sem distância medir.

Teu olhar eu encaro:
tem um jeito tão raro,
um feitio de dor.
Teu olhar interrogo:
é que espero, tão logo,
entender tua cor.

sábado, 23 de abril de 2011

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Herança

Você partiu.
Morreu na minha realidade.
Ficaram as lembranças,
um inventário de momentos,
de ideias, de palavras,
e de um silêncio derradeiro
que me cortou os pulsos sem derramar sangue,
que me calou a admiração,
plantou insultos na minha boca,
violentou minha esperança.

Não houve anúncio;
fiquei suspensa, tal qual equilibrista
na corda bamba do desencanto,
do desencontro...
desassossegada espera.

Hoje eu não sei de muitas coisas.
Não sei o que você levou de mim,
porque não há vazio algum aqui.
Não houve nem há abismo entre nós,
e como isso é possível, também não sei.
Eu só conheço a minha herança,
só vejo agora o que você me deixou.
Presença. Verdade.
O direito adquirido de te lembrar.
E me liberta saber que será sempre meu,
e todo meu,
o direito de sentir saudade.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Piano Bar

Composição: Humberto Gessinger

O que você me pede eu não posso fazer
Assim você me perde e eu perco você
Como um barco perde o rumo
Como uma árvore no outono perde a cor

O que você não pode eu não vou te pedir
O que você não quer, eu não quero insistir
Diga a verdade, doa a quem doer
Doe sangue e me dê seu telefone

Todos os dias eu venho ao mesmo lugar
Às vezes fica longe, impossível de encontrar
Mas, quando o néon é bom
Toda noite é noite de luar

No táxi que me trouxe até aqui
Bob Marley me dava razão
As últimas do esporte, hora certa
Crime e religião
Na verdade, nada
É uma palavra esperando tradução

Toda vez que falta luz
Toda vez que algo nos falta
O invisível nos salta aos olhos
É um salto no escuro da piscina

O fogo ilumina muito
Por muito pouco tempo
Em muito pouco tempo o fogo apaga tudo
E tudo um dia vira luz
Mas, toda vez que falta luz
O invisível nos salta aos olhos

Ontem à noite, eu conheci uma guria
Já era tarde, era quase dia
Era o princípio num precipício
Era o meu corpo que caía

Ontem à noite, a noite tava fria
Tudo queimava, nada aquecia
Ela apareceu, parecia tão sozinha
E parecia que era minha aquela solidão

Conheci uma guria que eu já conhecia
De outros carnavais, com outras fantasias
Ela apareceu, parecia tão sozinha
Parecia que era minha aquela solidão.

#55

E na hora em que recomeça a disputa
eu sempre fico em dúvida
eu logo penso: 'e agora?'
Melhor ser mais um candidato
na lista
ou ficar do lado de fora?